Sunday, May 20, 2007

Samba De Uma Nota Só

"Recebo centenas de e-mails com estes textos publicados na Folha Online. E noto que existe pergunta recorrente: como os portugueses olham para o Brasil? Como olham para os brasileiros? E como olham para os imigrantes brasileiros? Perguntas bicudas, Good Lord. Minha vontade instintiva era fugir à questão e responder: exatamente como os brasileiros olham para os portugueses. Piadas, piadas. Não seria justo. Nem verdadeiro. Primeiro, não temos piadas sobre brasileiros. Temos sobre alentejanos. Não é a mesma coisa. Depois, gostamos das piadas que os brasileiros contam sobre os portugueses. Eu, pelo menos, gosto. Existe nelas um fundo de verdade, embora as nossas mulheres, aviso, já não usem bigode. (...) Mas na piada do português existe, acima de tudo, um fundo de afeto. E nos portugueses? Há um afeto que se abre --ou um afeto que se encerra? Eu confesso que não sou exemplo. Com tia paulista que me corrige o tempo todo, sobretudo quando abuso do verbo "gozar" no sentido portuga da coisa, e com amigos que vivem desse lado (saudades, saudades; Vasco, por que não escreves mais vezes?), minha alma está dividida entre duas margens: entre meu país real e minha paixão distante. Mas nem tudo são rosas. Exemplo? O Observatório Europeu dos Fenômenos Racistas e Xenófobos, sediado em Viena, Áustria, divulgou hoje os resultados de um estudo massivo sobre racismo e xenofobia entre os 25 países da União Européia. Resultados trágicos. Metade dos europeus não quer imigrantes por perto. A tabela é liderada pelos gregos (os suecos são os mais tolerantes). E Portugal? Quarto lugar. Seis em dez portugueses olham para os imigrantes com desconfiança. Os resultados são trágicos por dois motivos. Primeiro, porque a Europa está condenada ao fracasso sem imigrantes. Demograficamente, as perspectivas são negras. E com a falência do modelo social vigente, uma população envelhecida será insustentável num futuro próximo. Precisamos urgentemente de transar. Ou de importar gente para trabalhar --e transar.Mas os resultados são também terríveis para os próprios portugueses. Generalizar é matar, claro. Mas sei, sinto e pressinto que existe ainda no meu país uma atitude de desconfiança em relação ao "estrangeiro" que é causa primeira de nossos problemas e fracassos. Talvez 48 anos de fechamento ao exterior expliquem muita coisa. Não justificam tudo. Não justificam nada. Um país como Portugal, que enriqueceu rápido (e enriqueceu mal), tem de estabelecer ligações necessárias com os seus parceiros europeus. Mas, cuidado, nenhuma ligação burocrática pode esquecer a ligação primordial com gente que fala a mesma língua e partilha a mesma história.Nada faria melhor aos portugueses do que um belo banho de tropicalismo. O nosso fado é belo, sim. Mas o nosso fado não basta. Cantado na solidão, o nosso fado é samba de uma nota só. "
(Crónica da Folha São Paulo escrita pelo colunista João Pedro Coutinho, português)

3 Comments:

Blogger Taupter said...

Bom, há uns séculos atrás, veio um tuga ao Brazil transar com minha tataravó (índia do beiço furado). Nada mais justo que agora sejamos exportados para além-mar. :) Falando nisso, onde me increvo? Falo português fluentemente (um excelente diferencial bem a propósito), sou um gajo fixe com comprovada experiência reprodutiva (filha de 15 anos) e disponibilidade para mudanças e viagens. E ainda sei trabalhar! Só falta uma tuga que me adote, mas creio que nem todos têm as sorte e competências de meu patrício Fabiano Barros. :) Mas olha que ainda confio em minha estrela, e ainda que não seja Amália, que seja Piaf, que não há de faltar porto nas costas sinuosas da deusa Europa, e Björk cá faz sucesso também (que eu adoraria ter um filho com sobrenome patrionímico, como Hélio Klaudiusson ou Natasha Klaudiusdóttir).
Ademais, sonhos o são, e sigo gritando "Evoeh!" por aqui mesmo. É, Portugal bem que está precisando mesmo de um banho de tropicalismo...

7:52 PM  
Blogger ÁguaDiCoco said...

Pois..
Sim precisamos sim de um banho de tropicalismo que o Brasil já nos vai passando pela sua contínua presença em Portugal ou pela Tv etc etc. Para perder alguns formalismos exagerados e pessimismo crónico dos portugueses, por exemplo. Mas já se sabe que, em contrapartida, o Brasil tb precisaria de umas reparaçõezitas... fica pra outro post!

11:45 AM  
Blogger Maria said...

eita eita eita! Essa do fabiano barros foi muito boa! bom, será que foi o tropicalismo do bianinho que seduziu a bela nortenha, ou o mau humor e sangue lusitano que prendeu o indiozinho cearense? ehheeh...fica pra outra vida....
mas falando de culturas e acho que já tenho uma bagagem grande no assunto, acho que o fundamental mesmo é cada país manter as suas carateristicas pois é isso que lhe confere a originalidade que faz com que no Brasil sintamos falta de Terras de PORTUCALE e neste ultimo sintamos a falta da terra de Iracema...
beijos querida

2:47 PM  

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